Quando eu morrer

Autora Rita Lavoyer

 

Quando eu morrer não avise as pessoas,
eu não quero sair de cena com despedidas.
Quando eu morrer não publique no jornal,
eu não quero que saibam através de anúncios.
Quando eu morrer não comente com os amigos,
eu não quero poesias sobre o que eu fiz.
Quem declama geralmente gospe longe
e as gotas das salivas podem
manchar a minha maquiagem suada.
Quando eu morrer me passe muito batom,
deixe os meus lábios bem vermelhos,
do jeito que eu gosto,
para depois poder tirá-lo.
Eu não gosto de lábios pálidos.
Passe batom em mim!
Quando eu morrer não me ornamente com flores,
também não quero receber coroas.
Lutei muito para ser plebeia.
Quando eu morrer
eu quero permanecer no chão ou na cama.
Por favor, não me coloque em uma urna,
eu não quero ser objeto de voto e decidir
se quero morrer ou morrer mais ainda.
Quando eu morrer...
Ah, passe batom nos meus lábios,
não se esqueça de arrancá-lo depois.
Quando eu morrer cheire o meu corpo inteiro,
experimente o gosto dele,
me tome em seus braços, me leve ao céu.
Venha comigo e me faça companhia,
pode ser ao inferno também.
Eu não quero morrer só.
Quando eu morrer não avise os repudiadores,
eles podem me matar.
Ah!
Quando eu morrer promete que vai celebrar o sétimo dia,
mas sem sair do meu lado?
Fazer uma festa? Abrir um espumante?
Não se esqueça de passar batom em mim quando eu morrer.
Gostaria que jogasse pétalas sobre o meu corpo
até encher o nosso canto,
aquele que pretendemos lotar com os nossos corpos.
Nós dois ali dentro, apertadinhos...
Eu Morta Adormecida, você meu Príncipe Encantado.
Quando eu morrer beije os meus lábios
até o meu batom tatuar os seus.
Quando eu morrer
limpe o resto da minha maquiagem com as folhas da poesia.
Com as páginas dos jornais cubra a arma da minha morte.
Não quero que a sua potência vire notícias.
Não avise quando vier para me matar.
Amanhã talvez já seja tarde
para eu morrer.
Eu o espero, venha naturalmente.
Venha! Venha!
Venha me amar e me matar de amor.
Depois eu o marcarei todo com o meu batom.
E em outra cena entraremos vivinhos, vivinhos
para morrermos e matarmos um no outro,
permitindo-nos provocações.
Dê outra cogitação à morte,
ainda dá!
Dá?

Do livro Partida - Rita Lavoyer.

 



Créditos

Tube - Gini

 

(Repasse com os devidos créditos)

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Publicado em: 18.10.2003 Atualizado em:  16.09.2013