Torna Sorrento
Autor
Hamilton Brito

Há muitos anos, na cidade de Sorrento, uma linda cidade que fica na extremidade meridional do Golfo de Napoli, nascia Natalina Ricci... A Nina. Veio visitar parentes no Brasil. Aqui conheceu um morenaço daqueles. Nunca mais Sorrento viu Nina, nunca mais Nina viu Sorrento. Mas nunca deixou de sonhar em um dia retornar à sua cidade querida. Não havia revista ou disco com músicas italianas que Nina não possuísse. Ouvia músicas o dia inteiro, sobretudo duas que amava: Ó sole Mio e Torna Sorrento, com Beniamino Gigli, para ela, o rei da voz italiana. Trabalhando na lavoura com o marido, no interior de São Paulo, viu o patrimônio crescer, a família crescer, a esperança de voltar à bela Itália crescer e.... Ficou viúva. Os filhos tomaram conta dos negócios, depois os netos incorporaram-se na administração, sempre prometendo à velha, que "o ano que vem a gente leva a senhora para ver o papa". _
-Io non quero ver o papa, filho de uma putana, quero voltar a Sorrento!
Perto da sua propriedade rural, abriram uma lanchonete que recebeu o nome do dono: Lanchonete do Lindauro. Especializado em assados e cervejas estupidamente geladas, o ambiente passou a ter nas sextas feiras, período noturno, um videokê, administrado por uma simpática morena, a Rita Peres, que estranhamente tinha o apelido de “mundiça”. Como sucesso pouco é bobagem, a coisa “bombou”. Para arrumar uma mesa e quatro cadeiras, só com promessa para Nossa Senhora da Caropita. Há muitos anos , só que menos do que haviam passado desde o nascimento de Nina, nascia em Araçatuba, José hamilton. Brito, enquanto levava a vida de formiga, só tinha tempo para a sua família e sua profissão. Só lia matéria destinada a melhorá-lo como profissional. Cantar? ...nem pensar. Mas a aposentadoria chegou. Ficou meio perdido.
- E agora, José?
-Agora, você é cigarra. Não viveu a vida inteira como formiga? Assuma o seu novo status e seja feliz, na medida do possível.
Havia perdido o elo com os amigos de profissão. Quando com eles se encontrava, era só alegria, abraços... No começo do encontro. Depois, eles falavam das coisas que ele viveu a vida inteira, cessava a interação e vinha uma tristeza infinita. Nunca mais foi ao encontro da velha e querida galera. Tudo ficou no passado. Mas para Brito, nunca houve a esperança da volta, de um reencontro, pois as leis de mercado são inexoráveis. Arrumaria uma nova turma... UMA NOVA VIDA. Perto da sua casa inauguraram o Cantinho do Lanche e colocaram para chamar a atenção dos passantes, um videokê. Começava aí a formação de uma nova turma.... O INÍCIO DE UMA NOVA VIDA. Brito foi encostando aos poucos e mandava marcar o seu nome. O organizador chamava e ele não ia. Medo. Aconteceu umas três ou quatro vezes. Na última o sujeito ficou bravo.
_ O senhor está me fazendo de besta? Ou canta ou vai se ver comigo.
Se ver como? O cara era grandão, marombado. O jeito foi atender o seu pedido... pedido!
 Cantou, ainda se lembra, Brigas, do Altemar Dutra. . “Duas almas que o destino, um dia escolheu.....”
Pois bem, na Lanchonete do Lindauro, o destino reuniu Nina e Brito. Este havia cantado Ó sole Mio. Ela se emocionou. O neto dela, pediu que ele cantasse, se soubesse, Torna a Sorrento. Ele sabia. Pegou Nina pelos braços, ela apoiada na bengala e ao seu lado, começou a ouvir a canção. Um imenso e respeitoso silêncio recebendo a voz do cantor  e a emoção da anciã. De repente, Nina desfalece e ambos vão ao chão. Um médico que estava presente constatou a morte súbita da velha senhora. Motivo: violenta emoção. Até o momento do enterro, Nina mostrava um teimoso sorriso nos lábios. Segundo o neto, o espírito de Nina havia retornado a Sorrento e lá ficará até o dia em que voltará a encontrar o seu corpo, quando Ele julgar os vivos e os mortos.

Imagens Jpg da net

 

(Repasse com os devidos créditos)

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Publicado em: 05.09.2013  Atualizado em:  24.09.2013